Literatura e Turismo: Viagens, Relatos e Itinerários
Organização | Rita Baleiro, Sílvia Quinteiro, Isabel Dâmaso Santos
Edição | Universidade do Algarve
Ano | 2016
Este é o segundo de dois volumes nos quais agregámos os artigos apresentados na Conferência Internacional Portugal Literário (Lisboa, 14 e 15 de junho de 2016); artigos avaliados e selecionados por um processo de dupla revisão anónima, realizado pelos elementos de um grupo de especialistas nas áreas da literatura e do turismo. Neste volume incluímos os trabalhos que foram construídos em torno do tema da viagem, dos relatos que resultam dessas deslocações temporárias e dos percursos traçados, quer para promover potenciais viagens, quer para descrever viagens pretéritas. Na verdade, é o ato de viajar que dá unidade a este painel de textos que vem mais uma vez sublinhar a íntima relação entre a literatura e o turismo; uma relação que implica uma observação atenta do ato de viajar e do produto desse ato, para além de aproximar e materializar espaços geográficos reais e ficcionais e concretizar a existência de uma geografia literária, como ficou evidente no volume Literatura e Turismo: Turistas, Viajantes e Lugares Literários. O primeiro trabalho deste volume é “Pero Vaz de Caminha e a visita ao jardim das delícias: Da utopia à realidade”, da autoria de Artur Gonçalves. Com este texto recordamos um dos mais emblemáticos registos de viagem da historiografia nacional, um relato que teve o condão de transformar em utopia a realidade, para além de tornar saliente a estranheza, tantas vezes experimentada, pelos viajantes sempre que se deparam com novos territórios e novas gentes. Também o texto de Isabel Dâmaso Santos descreve uma viagem: a que D. Filipe I (Felipe II de Espanha) realizou a Portugal, entre 1581 e 1583, logo após a sua coroação, em Tomar. Neste trabalho, reconstitui-se o roteiro percorrido pelo monarca, ao mesmo tempo que se desenvolve uma comparação entre o Portugal de 1600 e o Portugal atual, no que ao turismo diz respeito. Recuando ao início do período histórico descrito no texto de Isabel Dâmaso Santos, João Carvalho em “Caminhos e descaminhos de Portugal (séculos XVI e XVII)” centra-se na época da história nacional que culminaria na perda da independência e na instauração da chamada monarquia dual filipina (1580- 1640), analisando as relações entre escrita e viagem, território e identidade. Os três textos seguintes lançam um olhar atento sobre a potencialidade de criação de itinerários a partir de autores ou textos literários no nosso país: um dos resultados mais visíveis da relação entre literatura e turismo. Isabel Maria Fernandes Alves, em “A interioridade ou o itinerário transmontano de A. M. Pires Cabral” foca-se na região de Trás-os-Montes, refletindo sobre o modo como a poesia de A. M. Pires Cabral ilustra simultaneamente um itinerário pessoal e subjetivo e uma leitura sobre as paisagens transmontanas; Maria Mota Almeida apresenta uma proposta de itinerário, na região do Caramulo, inspirada na obra literária de António José Branquinho da Fonseca; e Maria da Glória Alinho dos Santos, em “Do outro lado do espelho: O escritor face à magia do Alentejo”, transporta-nos até à paisagem alentejana, através das representações desta região em textos { 8 } Literatura e Turismo: Viagens, relatos e itinerários literários portugueses do século XX, aflorando a possibilidade de criação de roteiros literários. Nos três últimos artigos deste volume, a viagem é analisada sob a perspetiva das publicações dirigidas àqueles que pretendem viajar, daqueles que a empreendem e da associação entre literatura, cinema e turismo. No trabalho de Luís Romano, “Cecília Meireles, editora de uma revista para viajantes e turistas no Brasil”, estuda-se o modo como este tipo de publicações tem a capacidade de traçar um determinado perfil da história e da cultura de um país, o que vai, definitivamente, influenciar a perceção que se tem de um dado país/destino turístico. Assim, detendo-se no caso particular da revista Travel in Brazil que, nos dois primeiros anos da década de quarenta do século XX, foi editada por Cecília Meireles, Luís Romano não só analisa os principais conteúdos desta publicação, como apresenta duas das principais figuras da esfera das viagens: a figura do turista e a do viajante, a partir do prisma de Cecília Meireles. É o relato de um narrador-viajante por terras de Itália que Carla Marisa Valente analisa em “Entre enlevos e desencantos: A Roma e a Veneza Abel Salazarianas”, a partir de uma leitura do texto Uma Primavera em Itália, de Abel Salazar. No trabalho “Between flânerie and tourism: Tabucchi, Wenders, and the Portuguese South”, de Sara Ceroni, o tema é a viagem na interseção da literatura, da sétima arte e da atividade turística. Centrando-se no contexto português do pós-1974, Sara Ceroni analisa as representações de Portugal e da cultura portuguesa em textos de Fernando Pessoa, no romance Requiem: A Hallucionation, de Antonio Tabucchi e no filme Lisboa Story, de Wim Wenders, bem como avalia a mercantilização da literatura quando esta se transforma num produto turístico. Chegadas ao final do editorial fica a certeza do valor dos trabalhos apresentados no conjunto dos dois volumes: Literatura e Turismo: Viagens, Relatos e Itinerários e Literatura e Turismo: Turistas, Viajantes e Lugares Literários, bem como a certeza do valor dos contributos da investigação interdisciplinar ao revelar novos ângulos de observação, análise e interpretação que enriquecem não só o conhecimento, como constroem novos objetos de conhecimento nascidos na fronteira da ficção literária e da realidade.