Reler José Saramago

Organização | Lourdes Câncio Martins
Edição | Edições Cosmos
Ano | 2005

Os textos de Saramago, ao exibirem a sua intrínseca ficcionalidade (e a crise da crença numa referencialidade absoluta é um dos traços mais distintivos do escritor), sublinham de forma subversiva o modo como qualquer discurso (seja ele canonizado pela historiografia, pela igreja ou pela literatura) está carregado da marca pessoal e subjectiva de uma verdade sempre questionável. A suprema ironia da obra, que se baseia em processos de desconstrução de textos canónicos, acaba invariavelmente por dessacralizar a sua própria ficção: um mundo possível entre muitos outros. É preciso dizer, no entanto, que a estratégia de reescrita não se aproxima de textos consagrados (ou sagrados), mas também se apropria da tradição oral, para questioná-la quando inverte provérbios ou recontextualiza adágios populares. Não é, pois, de estranhar que Saramago reaja contra a conceção do narrador, considerando, nomeadamente, que é impossível não atribuir a sua voz de autor a esse ser de papel, envolvendo-o na trama diegética para que possa assumir a regência do processo ficcional.