Quir Research Hub
Coord: Helder Thiago Maia
Descrição
Quir Research Hub consiste numa comunidade transdisciplinar de investigadoris que trabalham no domínio alargado dos estudos de género e da sexualidade, com particular foco nos estudos literários e culturais, na performance, e na representação. O nosso compromisso-base jaz na produção de análise cultural e ação institucional consequente, propondo soluções teóricas, críticas, e pedagógicas relevantes, e gerando conexões entre diferentes contextos institucionais e sociedade civil.
Ao recuperar o termo quir (invocando a transcrição fonética e linguisticamente auto-reflexiva de “queer” em contextos Latino Americanos), nas suas interações instáveis com definições dominantes do conceito de “queer” (frequentemente usado enquanto sinónimo do acrónimo LGBTQIA+, particularmente na Europa e nos Estados Unidos), queremos sinalizar o nosso compromisso para com epistemologias e tradições de produção de conhecimento insurgentes articuladas a partir do Sul Global, conforme estas animam e problematizam mundividências e práticas sociais embutidas na tradição ocidental, e na violenta história do colonialismo Português em particular (Sutherland, 2009; Lugarinho, 2003; de Perra, 2012; Pelúcio, 2014). Posicionamo-nos, portanto, em coligação epistémica e metodológica com outras zonas periféricas (e semiperiféricas) de produção de conhecimento, assumindo o compromisso de produzir um relato mais heterogéneo, intersecional, não-binário e transdisciplinar das estruturas de poder e padrões culturais que dão forma a estes diversos contextos.
Formulações como as de “dissidência sexual” (Dollimore, 1991) e “desobediência de género” (Serrano, 2007) expressam a complexidade epistemológica de práticas críticas insurrecionais nos estudos de género e da sexualidade, quando perspetivadas à escala transnacional. Reconhecendo esta pluralidade de perspectivas, e a heterogeneidade crucial do campo em si, assumimos a responsabilidade de situar a nossa própria intervenção no marco do capitalismo tardio e do neoliberalismo, do (neo)colonialismo, da globalização, do extrativismo ecológico e económico, da supremacia branca, e da cisheteronormatividade.
Ainda que os estudos queer tenham emergido primariamente de departamentos de Literatura Inglesa e Literatura Comparada nos Estados Unidos ao longo dos anos 80 e 90, reconhecemos a invisibilização estrutural do campo em Portugal, onde os estudos queer têm disposto de escasso apoio financeiro e institucional - apesar de um conjunto de contribuições significativas para o campo (Almeida, 2004; Amaral, 2001; Santos, 2006; Cascais, 2004). Com esta intervenção, esperamos ajudar a transformar este panorama, recentrando o género e a sexualidade enquanto categorias cruciais de análise através de um espectro diversificado de contextos disciplinares - incluindo os estudos literários, artísticos, e culturais. No processo, visamos também conferir maior visibilidade à pesquisa em estudos queer desenvolvida a nível nacional.
Princípios e abordagem teórica-metodológica
QUIR Research Hub propõe-se a operar enquanto plataforma para a aproximação e fortalecimento de uma rede diversificada de investigadoris, ativistas e artistas, de modo a refletir coletivamente sobre as complexas relações entre o género, a sexualidade, a raça, e o poder, e sobre a sua interdependência constitutiva enquanto fenómenos sociais. Interessa-nos particularmente pensar a experiência queer tanto em termos especulativos (enquanto figura conceitual), como num plano mais material (enquanto regime de corporalidade e subjetivação). Mantendo no entanto espaço em aberto para outras formas de dissidência sexual e desobediência de género. Assim, a nossa ênfase incide em 1) a representação (no cinema, na literatura, nos media, e em outros contextos), 2) performance (incluindo a performatividade e formação de identidades) e práticas sociais (ativismo, prática criativa, práticas políticas, etc.)
Os seguintes princípios informam a nossa abordagem metodológica e teórica:
- Esta prática de investigação intersecional é, necessariamente, constituída em estreito diálogo com outras tradições críticas fundadas sobre a resistência a sistemas de opressão dominantes, incluindo o feminismo; os estudos gays e lésbicos e os estudos trans; os estudos pós-coloniais e decoloniais; a teoria crítica de raça e os Black studies; os estudos da deficiência, a teoria crip, e os mad studies; os estudos animais e a ecocrítica; os estudos da migração e da globalização, e os diversos modos como a solidariedade e a afinidade são performadas e constituídas em discursos minoritários:
- Propomos-nos desenvolver um arquivo de estudos LGBTQIA+ Portugueses e/ou de língua portuguesa, contribuindo tanto para a sua disseminação como para a sua contínua rearticulação, contestando assim (e recontextualizando) as economias de representação anglocêntricas que dominam a teoria queer e a política queer à escala internacional. Queremos estabelecer conexões entre diferentes arquivos teóricos e culturais de língua portuguesa, através de uma perspectiva transacional e comparativa;
- Reconhecemos que o trabalho teórico e crítico queer não é possível na ausência de um diálogo contínuo com a teoria feminista (e com os estudos das mulheres), que em larga medida providenciaram a teoria queer com as suas condições históricas de possibilidade. Assim sendo, chamamos continuamente atenção à interface necessária entre teoria queer e várias tradições dentro da crítica feminista, incluindo o transfeminismo, o feminismo negro, o feminismo pós-colonial e descolonial, o feminismo marxista, e os estudos de género;
- Partimos de um enquadramento comparativo e intercultural, através do qual se entretecem diferentes posições teóricas, culturais, e linguísticas, de modo a produzir uma reflexão in situ, informada pelas políticas da localização (Rich, 1984) da nossa própria intervenção, e atenta às histórias específicas de prática feminista, transfeminista e/ou queer em Portugal. Cremos que através da criação de uma malha conectiva entre diferentes localizações institucionais, podemos produzir uma descripção teoricamente fundamentada do contexto português, e uma crítica situada às exclusões frequentemente reproduzidas por discursos dominantes dentro dos estudos de género e da sexualidade - que muitas vezes se focam de modo preponderante no Norte Global;
- A autoficção, a autoteoria, e a autobiografia têm tido um peso significativo na história dos estudos queer e da teoria queer. A sua importância para a crítica feminista tem também sido reconhecida, incluindo o uso destes regimes de escrita em métodos experimentais de engajamento crítico (Fournier, 2022). Reconhecendo a necessidade de constituir conhecimentos situados (Haraway, 1988), acreditamos que uma ênfase deliberada nestes diferentes formatos e abordagens pode ajudar a enquadrar as diferenças a) entre o dito “conhecimento especializado” e a experiência pessoal; b) entre a produção académica e outros sistemas (informais) de produção coletiva de conhecimento (incluindo a história oral ou os arquivos não-académicos, Cvektkovitch, 2003) e c) a cultura de elite (incluindo o cânone literário), diversas contra-culturas, e a cultura pop dominante - para além de experiências e interpretações quotidianas;
- Pensamos a textualidade no sentido mais amplo, referindo-se a um vasto conjunto de matérias culturais, e enfatizamos uma abordagem disciplinar interartes, que coloca diferentes práticas artísticas (e diferentes domínios não-artísticos de produção cultural) em diálogo crítico. Partindo de um entendimento da literatura enquanto “campo expandido” (Garramuño, 2012), e do conceito de “literatura pós-autônoma” (Ludmer, 2010), procurar colocar a literatura em si em perspectiva, nas suas interacções com outras práticas culturais. Na esteira do conceito de “fenomenologia queer” (Ahmed, 2006), reconhecemos o texto enquanto espaço relacional e interativo, que potencia a análise crítica de entendimentos comuns da experiência vivida, e a transformação de estruturas dominantes de disciplinaridade e dominação.
Actividades
- Quir Seminar Series #8: A emergência de novos discursos críticos às identidades, 9 de Junho de 2026.
- Poéticas da Castração, 14, 21, 28 de maio e 11 de junho de 2026.
- Quir Seminar Series #7: Literatura e dissidências: diálogos com a literatura brasileira, 8 de Janeiro de 2026.
- Quir Seminar Series #6: Literatura e linguagem transviadas, 20 de Outubro de 2025.
- International Conference – 7th Queering Afro-Luso-Brazilian Studies International Conference, 30/09 a 02/10 de 2025.
- Curso Livre "Literaturas Queer em Língua Portuguesa", 01 a 29 de Julho de 2025.
- Quir Seminar Series #5: Antes do Queer, 28 de Maio de 2025.
- Quir Seminar Series #4: Masculinidades, 14 de Março de 2025.
- Quir Seminar Series #3: Trans Marxisms, 19 de Dezembro de 2024.
- Quir Seminar Series #2: Arquivos Lgbtqi+ em Portugal: resistências, 26 de Setembro de 2024.
- Quir Seminar Series #1: Arquivos Lgbtqi+ em Portugal, 09 de Julho de 2024.
Publicações
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D´Amico, Marzia. (2024). el Gasometro: a gender perspective on the Ostiense District in Rome, People, Spaces and Places in Gendered Environments (vol 34), ed. by Vasilikie Demos & Marcia Texler Segal (Emerald Press), pp. 35-53. DOI: https://doi.org/10.1108/S1529-212620240000034003
- Maia, Helder Thiago (2024). Donzelas guerreiras: mulheridade, transgeneridade e guerra. Salvador: Devires.
- Matias, Joana (2024). "Cravos cor-de-rosa: notas para o lugar das dissidências sexuais e de género na história da Revolução". Revista Crítica de Ciências Sociais [Online], 133. Doi: https://doi.org/10.4000/11pr2
- Semedo, Luísa (2024). Luta AfroQueer: as sementes de Amílcar Cabral. Revista Crioula, 34. Doi: https://doi.org/10.11606/issn.1981-7169.crioula.2024.232301
Helder Thiago Maia
Marzia D’Amico
Salomé Honório
Ana Romão
Carolina Monteiro
Joana Matias
Luísa Semedo
Mar Espiridião
Sol M. Barbosa